Steven Spielberg praticamente moldou a forma como o cinema moderno enxerga histórias sobre extraterrestres. De Contatos Imediatos do Terceiro Grau a E.T. – O Extraterrestre e Guerra dos Mundos, ele mostrou que alienígenas nunca foram apenas alienígenas. Eram uma ferramenta para falar sobre infância, medo, família, esperança e o desconhecido. Talvez seja justamente por isso que seu novo filme me decepcionou tanto. Pela primeira vez, tive a sensação de ver Spielberg repetir a si mesmo, mas sem aquilo que sempre fez seus filmes especiais: o encanto.

Se eu tivesse que resumir o filme em uma única frase, seria simples: uma grande sugestão.

Tudo nele parece apontar para alguma coisa. Sugere um grande mistério, sugere conflitos, sugere reflexões sobre a humanidade, sugere revelações importantes. Mas quase nada realmente acontece. Quando chega o momento em que o roteiro finalmente revela suas cartas, o principal plot já estava escancarado havia muito tempo.

Essa falta de impacto é agravada pela maneira como Spielberg conduz a narrativa. Em vários momentos, ele parece emular escolhas de outros diretores, tanto na fotografia quanto na construção do suspense e até nas soluções de roteiro. O resultado é um filme que raramente encontra uma identidade própria e, pior, exige uma suspensão de descrença enorme para aceitar decisões que parecem fáceis demais. Muitas situações se resolvem de maneira conveniente, quase preguiçosa, quebrando a lógica que o próprio filme tenta construir.

Há também uma estranha oscilação de tom. Em alguns momentos, Spielberg parece querer construir um terror cósmico. Em outros, transforma os alienígenas em figuras quase lúdicas, como se sua presença fosse uma manifestação da incapacidade humana de compreender o desconhecido. A ideia poderia funcionar, mas aqui soa vazia. Talvez porque o filme nunca encontre um equilíbrio entre essas duas propostas.

Curiosamente, as melhores imagens dessa ideia aparecem justamente nos flashbacks envolvendo crianças. São momentos que parecem querer resgatar aquele olhar infantil tão característico da filmografia de Spielberg. Mas, como o grande mistério do roteiro já está praticamente resolvido pelo espectador, essas cenas acabam provocando muito menos emoção do que deveriam. Elas existem, mas nunca encontram o peso dramático necessário.

Isso acaba refletindo em todo o restante da narrativa. É difícil até identificar quem realmente conduz a história. Os personagens entram e saem do centro da ação sem que o filme estabeleça um verdadeiro ponto de vista, e o antagonista principal possui motivações frágeis demais para sustentar o conflito.

Emily Blunt, por exemplo, continua sendo uma personagem fundamental para a história. O problema não é sua importância dentro do roteiro, mas a sensação de que uma atriz desse tamanho merecia muito mais. É impossível não lembrar de Um Lugar Silencioso, em que ela entrega uma atuação devastadora e carrega boa parte da tensão emocional do filme. Aqui, mesmo presente nos momentos decisivos, seu talento parece preso a uma história incapaz de acompanhá-lo.

Enquanto assistia, era impossível não pensar em A Chegada. Denis Villeneuve constrói um dos filmes mais bonitos já feitos sobre o contato entre humanos e alienígenas. É uma obra que entende que o verdadeiro espetáculo não está nas naves, mas na transformação das pessoas diante do desconhecido. Cada descoberta muda os personagens e também muda quem está assistindo.

O novo Spielberg parece seguir pelo caminho oposto. Em vez de confiar nas imagens, insiste em explicar tudo através dos diálogos. Personagens verbalizam ideias, motivações e conceitos o tempo inteiro, como se o roteiro desconfiasse da capacidade do público de interpretar aquilo que está vendo.

Nem mesmo o design dos alienígenas me convenceu. A opção por seres magros, cabeçudos e de olhos enormes conversa diretamente com o imaginário popular sobre extraterrestres. É uma solução fácil, imediatamente reconhecível, mas pouco inspirada. Em um filme que pretende discutir o desconhecido, seus alienígenas parecem familiares demais.

No fim, o que mais me incomodou foi perceber que eu simplesmente não me importava com ninguém naquela história.

Talvez tenha faltado justamente aquilo que Spielberg sempre entendeu melhor do que quase qualquer outro diretor: a infância como ponto de conexão com o extraordinário. Não porque toda história sobre alienígenas precise ter uma criança, mas porque são elas que costumam enxergar o impossível com menos filtros. Neste filme, quando essa perspectiva aparece, ela chega tarde demais e nunca encontra espaço para florescer.

Em Guerra dos Mundos, eu passei o filme inteiro torcendo para que aquela família sobrevivesse. Em E.T., Spielberg construiu uma amizade tão sincera que conseguiu me fazer chorar assistindo pela televisão de casa.

Agora, foi a tela grande do cinema que conseguiu me arrancar uma emoção. Indiferença.