Curta potiguar “Mariposa” conquista prêmio em festival de Brasília
Em meio ao rito e a ancestralidade, o curta metragem filmado em Extremoz propõe novos caminhos para o cinema negro e experimental.

“Entre o silêncio e o barro, suas existências se tensionam em uma batalha a ferro e fogo, movidas pelo desejo de permanência”. O trecho da sinopse de Mariposa dá o tom do curta-metragem potiguar que voltou premiado da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no último final de semana. A produção conquistou o Prêmio Zózimo Bulbul de melhor curta-metragem e recebeu uma menção honrosa do júri oficial na Mostra Competitiva Nacional de Curtas.
Dirigido e roteirizado por Alexandre Américo e Pedro Vitor, o curta de 14 minutos foi filmado em preto e branco entre as dunas e a vegetação da praia de Santa Rita, em Extremoz. Unindo rito, memória e território, a obra traz em cena a trajetória de Dona Zefa, vivida por Mãe Bianca de Omolú, e Oliveira, interpretado pelo próprio Alexandre.
Entregue por um júri formado pelo Centro Afrocarioca de Cinema e pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), o Prêmio Zózimo Bulbul homenageia um dos maiores nomes do cinema negro do país. Para os jurados, Mariposa se destacou pela “inventividade dentro do território ancestral”, criando uma linguagem própria que foge dos estereótipos que costumam engessar narrativas negras.
Para Alexandre Américo, vencer em Brasília foi muito importante por algumas razões. A primeira, pelo reconhecimento nacional da existência de artistas com deficiência e negros: “nós existimos, mas às vezes não somos reais. Às vezes nossa experiência no mundo é atravessada por muitas opressões”, ressaltou.
Os realizadores afirmam que receber esse prêmio é, de alguma maneira, um reconhecimento de que o caminho escolhido foi o certo: “a nossa aposta é o descolamento de imagens de sofrimento e de escassez do povo negro com deficiência, sobretudo, das minorias da classe que sofre opressões, pois apostamos na vitalidade”, complementou, Alexandre.
Audiovisual negro potiguar
Toda obra artística carrega o ato político de resistir e o caso de “Mariposa” não é diferente. Vindo como um movimento contra-hegemônico, Alexandre revelou que observa um avanço na produção audivusal negro: “pensando o cinema negro como linguagem e posição política, com um compromisso que se firma ao protagonismo da negritude em sua experiência da vida cotidiana, mas também fabulatória, mítica, religiosa, onde as equipes são majoritariamente negras e compactuam com outros modos de fazer.”
O diretor ainda ressaltou que é de objetivo da produtora do curta, Torta Plataforma, reverberar um modo diferente de se produzir cinema, se distanciando daquela arte em sua maioria branca.
“Nós somos artistas, em sua maioria, neurodivergentes e também negros, e isso faz com que os nossos filmes e nossas proposições obedeçam uma lógica que é outra, uma cosmovisão que é distinta da hegemonia do que vem se construindo enquanto arte, que em sua maioria é branca”, disse, Alexandre.
Sobre o filme
Distante das estruturas tradicionais de narrativa, Mariposa é um filme abertamente experimental, seja na linguagem ou gênero, pois mistura documentário com fabulação, com elementos de videodança e várias outras linguagens artísticas.
A história não é linear e gira em torno de um ataque à natureza: um homem tenta destruir e ceifar as raízes de uma gameleira sagrada. Como resposta, a entidade que protege aquela árvore o enfeitiça. A partir daí, o curta se desenvolve em um jogo de forças entre três presenças em cena: a árvore sagrada, o homem que tenta destruí-la e a mulher velha que a guarda.
Vale destacar que apesar do destaque no festival, a obra ainda não tem data para ser exibida no Rio Grande do Norte. Enquanto apreciadora do cinema, espero em breve assistir nas grandes telas.




