Antes da estreia em Gramado, "Leite em Pó" ganha teaser e revela primeiras imagens do novo longa de Carlos Segundo
Filme rodado em Natal disputa a mostra competitiva do Festival de Gramado e marca uma nova etapa na trajetória do cineasta.

O cinema potiguar volta a ocupar espaço em um dos principais festivais do país. O longa Leite em Pó, novo filme do diretor Carlos Segundo, divulgou recentemente seu primeiro teaser e se prepara para estrear na mostra competitiva do 53º Festival de Cinema de Gramado, que acontece entre os dias 13 e 23 de agosto, na serra gaúcha. Rodado em Natal, o filme marca o segundo longa de ficção do cineasta e reforça a presença da produção audiovisual do Rio Grande do Norte no circuito nacional.
A trama acompanha Vicente, um músico apaixonado por rock que tenta reconstruir a própria vida após uma perda familiar. Em meio ao luto e às dificuldades financeiras, ele aceita um novo trabalho e passa a percorrer diferentes espaços da cidade, em uma narrativa que aborda memória, amadurecimento e relações familiares. O filme também dialoga com aspectos históricos do Rio Grande do Norte, como a presença norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial e seus reflexos na formação da identidade local.
O protagonista é interpretado por Vinícius de Oliveira, ator com uma trajetória consolidada no cinema brasileiro e internacional desde sua estreia, ainda criança, como Josué em Central do Brasil (1998), de Walter Salles. Ao longo da carreira, Vinícius participou de produções como Abril Despedaçado, Linha de Passe, Boi Neon e diversos filmes e séries, tornando-se um dos nomes mais reconhecidos de sua geração.
O elenco reúne ainda Antônio Pitanga, Zezita Matos, Rejane Faria e a atriz potiguar Titina Medeiros, uma das artistas mais importantes da cena cultural do estado. Reconhecida nacionalmente por trabalhos no teatro, na televisão e no cinema, Titina construiu uma carreira marcada pela valorização da cultura nordestina e por personagens que aproximaram o grande público da produção artística potiguar.

Sua participação em Leite em Pó acabou ganhando um significado ainda mais especial após seu falecimento no início deste ano. Carlos Segundo conta que trabalhar com a atriz era um desejo antigo.
"Era meu sonho poder trabalhar com a Titina. Fiquei muito feliz quando ela aceitou participar do filme. Foi uma experiência incrível pela generosidade e pela atenção que ela tinha em cada ensaio"
, relembra.
O diretor lamenta que a atriz não tenha conseguido assistir ao filme finalizado, mas acredita que sua presença permanecerá registrada na obra.
"Ela está marcada no filme. Acho que é o último longa que ela fez e vai ficar registrada toda a beleza, a força e a luz que ela tinha. Me sinto honrado de ter compartilhado esse trabalho com ela."
Professor do curso de Audiovisual da UFRN, Carlos Segundo estreou nos longas de ficção com Fendas (2019). Nos últimos anos, consolidou seu nome entre os principais realizadores do cinema autoral brasileiro a partir dos curtas-metragens. Sideral (2021) disputou a Palma de Ouro de curtas no Festival de Cannes e entrou na lista preliminar do Oscar. Já Big Bang (2022) conquistou o Pardino d'Oro no Festival de Locarno, um dos mais importantes eventos dedicados ao cinema de autor.

Para o diretor, no entanto, Leite em Pó representa um passo diferente dentro da própria carreira.
"É o principal filme de longa duração que eu fiz. Pela primeira vez consegui trabalhar com todos os departamentos e todas as etapas da produção. Cerca de 150 pessoas passaram pelo filme entre atores e técnicos."
Embora seus trabalhos anteriores tenham alcançado grande repercussão internacional, Carlos explica que este novo longa nasceu pensando principalmente no público brasileiro.
"Sempre imaginei um filme para circular dentro do país. Ele tem elementos culturais muito específicos e algumas dessas camadas podem se perder para quem não conhece profundamente essa realidade."
A estreia em Gramado também simboliza a maturidade de uma trajetória iniciada com produções independentes e experimentais. Segundo o cineasta, Fendas (2019) surgiu em um momento de transição pessoal e profissional, quando mudanças nos critérios de avaliação da Ancine dificultaram o acesso de diretores de curtas-metragens aos editais de fomento. Produzido com orçamento reduzido, o filme serviu como porta de entrada para que ele voltasse a disputar espaço no mercado audiovisual. Agora, com uma equipe de cerca de 150 profissionais envolvidos entre a pré-produção e a pós-produção, Leite em Pó inaugura uma nova fase de sua filmografia.
Ao reunir uma equipe com forte presença potiguar, filmar em Natal e construir uma narrativa atravessada pelas memórias e contradições do território, o longa amplia a circulação de histórias locais sem abrir mão de dialogar com questões universais. O lançamento do teaser, às vésperas da estreia nacional, oferece ao público as primeiras imagens de uma produção cercada pela expectativa de consolidar mais um importante capítulo da filmografia de Carlos Segundo e da história recente do audiovisual potiguar.





