Neste domingo de Dia das Mães, flores, propagandas emocionadas e homenagens devem dominar as redes sociais. Mas existe uma discussão menos confortável que também atravessa a vida de milhões de mães brasileiras: a falta de tempo.

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força nos últimos anos muito por causa disso. Não se trata apenas de carga horária ou descanso. Para muitas mulheres, principalmente mães, a discussão envolve sobrevivência física, mental e emocional.

Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Homens dedicam 11,7 horas. Na prática, isso significa quase o dobro da carga de trabalho não remunerado.

Quando essa realidade encontra jornadas exaustivas como a escala 6x1, sobra pouco espaço para qualquer outra coisa. Descanso vira luxo. Lazer desaparece. Tempo com filhos muitas vezes se resume às horas de cansaço entre um turno e outro.

O impacto é ainda maior em setores onde a escala 6x1 é comum, como comércio, telemarketing e serviços, áreas com forte presença feminina. Segundo análises do Dieese, a combinação entre trabalho formal e responsabilidades domésticas produz um efeito direto no adoecimento físico e mental das mulheres.

A discussão também expõe uma contradição social antiga. Enquanto o discurso sobre maternidade costuma romantizar cuidado e dedicação, a estrutura de trabalho pouco considera quem sustenta essa rotina diariamente.

Em muitos casos, o único dia de folga da semana não funciona como descanso. É nele que se acumulam limpeza da casa, compras, cuidado com filhos, resolução de pendências e tarefas que simplesmente não cabem nos outros seis dias.

A própria discussão sobre redução de jornada escancara algo que há muito tempo mulheres já sabem: trabalhar menos não significa produzir menos. Significa, muitas vezes, voltar a existir para além do trabalho.

Especialistas apontam que o fim da escala 6x1 pode representar não apenas melhora nas condições de trabalho, mas também mais equilíbrio na divisão de cuidados dentro de casa.

Ainda assim, o debate encontra resistência. Parte do empresariado e setores políticos continuam tratando descanso como privilégio e não como direito básico. Enquanto isso, mães seguem sustentando jornadas duplas e, muitas vezes, triplas, invisíveis nas estatísticas afetivas de campanhas publicitárias de maio.

Talvez discutir o Dia das Mães também passe por isso: perguntar quanto tempo sobra para que essas mulheres possam existir além da função de trabalhar e cuidar.