Foi assim que João Batista, ambulante e trabalhador autônomo da praia de Ponta Negra, resumiu a relação entre moradores da Vila de Ponta Negra e a Polícia Militar do Rio Grande do Norte. A declaração surgiu após ele ser questionado sobre as recorrentes ações policiais na comunidade localizada em uma das regiões mais turísticas de Natal. 

A frase de João traduz o sentimento de medo e indignação relatado por moradores da vila diante de abordagens consideradas violentas e abusivas. Embora a Lei nº 13.869/2019 defina como crime o abuso de autoridade cometido por agentes públicos que utilizam o poder de forma arbitrária e violam direitos dos cidadãos, moradores afirmam que episódios de violência policial têm se tornado frequentes na comunidade.

No último ano, a vila de Ponta Negra vivenciou inúmeras práticas abusivas envolvendo a polícia. Segundo relatos uma moradora ao questionar aos polícias o por que de tanta violência foi respondida com um tapa no rosto. A vítima expôs que o episódio deixou marcas profundas e provocou traumas na vítima.

Os casos são alarmantes, mas não se limitam apenas à realidade de Natal. Segundo dados levantados pelo Ministérios da Justiça, em 2025, o Brasil registrou 6.519 mortes decorrentes de ação policial. No mesmo ano, uma operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, ficou marcada como um dos episódios mais violentos recentes do país, deixando 121 mortos.

Ato da Paz Vila de Ponta Negra

Ato de paz

Como resposta aos casos denunciados, moradores da Vila de Ponta Negra realizaram, no último sábado (16), um ato contra a violência policial. A mobilização aconteceu em frente à Paróquia São João Batista e reuniu mães, pais, jovens, idosos, comerciantes, artistas e lideranças comunitárias. Durante a caminhada pelas ruas do bairro, os participantes conversaram com moradores sobre os impactos da violência e denunciaram o que consideram negligência e abuso por parte das forças de segurança.

O projeto Vila pela Paz surgiu da articulação entre moradores, artistas e produtores culturais da comunidade, em meio ao aumento das denúncias de abordagens violentas e operações consideradas abusivas. 

Lucas Rodrigues, estudante de Audiovisual da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e morador da vila, participou do ato e relatou o medo constante durante as abordagens policiais. “Eu vejo sempre situações de abuso. Às vezes estou voltando da universidade tarde da noite e, mesmo sem estar fazendo nada errado, existe aquele receio de sofrer violência durante uma abordagem”, contou. 

O sentimento também é compartilhado pelos trabalhadores da região. João Batista, que cresceu na Vila de Ponta Negra e atua como comerciante, afirma que a realidade mudou nos últimos anos. “É muita opressão. Eles chegam de forma hostil, sem respeito. Muitas vezes colocam trabalhadores na parede como se fossem bandidos. Acho isso muito errado”, disse.

“Não é a mesma quando ele encontra um corpo periférico, um um corpo dissidente. Não é assim que eles tratam. Eles vão tratar com uma educação. Isso significa que eles sabem agir corretamente, eles sabem seguir a lei, eles sabem”, ressaltou Camila Morais, uma das organizadoras.

Após o protesto, o campo do Botafogo recebeu um ato cultural com palco aberto. Artistas potiguares participaram da programação, que contou com coco de roda, poesia, batalhas de rima e apresentações de DJs. A proposta foi transformar a cultura em instrumento de conscientização e resistência.

Ato da paz Vila de Ponta Negra

“Amanhã vai ser outro dia”

Segundo os organizadores, o protesto é apenas o início de uma série de ações pensadas para fortalecer a comunidade e reduzir os impactos da violência. Além das mobilizações, o grupo pretende desenvolver oficinas culturais, cursos profissionalizantes e atividades voltadas para a juventude da Vila de Ponta Negra. 

“A gente quer oferecer coisas que o poder público não oferece: oficinas culturais, cursos de línguas, capacitação para garçons e garçonetes, oportunidades para os jovens da comunidade”, explicou uma das organizadoras. 

Camila Morais afirma que o objetivo do movimento é construir alternativas para os moradores. “Estamos pensando em ações práticas que ajudem a comunidade a evoluir e se desenvolver, sem ficar refém da violência, venha ela de onde vier. A gente não quer ser refém da violência”, declarou.

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