O documentário 2DIE4: 24 Horas no Limite, dirigido por André Abdala e Salomão Abdala, é, antes de tudo, uma experiência. Pensado para colocar o espectador dentro da mente e do carro do piloto Felipe Nasr durante uma das corridas mais exigentes do automobilismo mundial, o filme aposta alto em uma proposta sensorial que, em muitos momentos, funciona de forma impressionante.

Não é de hoje que os irmãos Abdala chamam atenção no audiovisual. Vindos da publicidade e de produções voltadas ao esporte, especialmente ao universo do automobilismo, eles já demonstravam domínio estético e uma assinatura visual forte. Aqui, dão um passo além. Saem do território do lifestyle e mergulham no cinema com uma produção ambiciosa, tecnicamente refinada e, em vários aspectos, surpreendente.

Do ponto de vista visual e sonoro, 2DIE4 é um espetáculo. O uso de câmeras específicas, lentes desenvolvidas para o projeto e um desenho de som minucioso criam uma imersão poderosa. Há momentos em que o filme realmente consegue transmitir a pressão, a tensão e a velocidade de uma corrida de resistência. Mesmo para quem não é fã de automobilismo, a sensação de estar dentro do carro é palpável e esse é, sem dúvida, um dos grandes trunfos da obra.

O destaque vai especialmente para o áudio, que se mostra impecável. É ele quem conduz boa parte da experiência emocional, amplificando o impacto das imagens e reforçando a proposta imersiva. Nesse sentido, o filme entrega exatamente o que promete.

Mas é justamente quando sai do campo da experiência e entra no território da narrativa que o filme perde força.

Sustentado por uma estrutura pouco convencional, que mistura elementos documentais com encenação, 2DIE4 apresenta fragilidades claras no roteiro. A tentativa de acessar o lado psicológico do piloto por meio de narração em primeira pessoa acaba se tornando um ponto de tensão. Sem uma interpretação mais consistente ou uma direção mais precisa nesse aspecto, a narração soa irregular. Em alguns momentos, até excessivamente explicativa ou deslocada, tirando a força de imagens que, por si só, já comunicariam bem o que o filme tenta dizer.

Essa escolha também contribui para uma certa desconexão emocional. Mesmo com um personagem real e uma situação naturalmente carregada de tensão, o espectador nem sempre consegue se envolver plenamente com a jornada proposta. Falta densidade dramática para sustentar o impacto visual.

Outro ponto que chama atenção é a estrutura e duração do filme. Com pouco mais de uma hora, a obra levanta questionamentos sobre seu próprio formato. Vendido e distribuído como longa-metragem, o filme sequer atinge a marca tradicional dos 70 minutos, o que reforça a sensação de um projeto que talvez funcionasse melhor em outro formato. Em diversos momentos, há uma percepção de repetição, como se certas sequências se alongassem além do necessário, criando uma gordura que não contribui para o avanço da narrativa. Curiosamente, quando o filme começa a engrenar emocionalmente, ele se encerra.

Ingresso 2DIE4

O desfecho, por sua vez, aposta em uma cena extremamente clichê e de tom cafona, construída dentro das encenações que fazem parte da linguagem híbrida do filme, mas que não encontram o mesmo equilíbrio do restante da proposta. Existe ali uma noção clara de onde a história deveria chegar, mas a escolha final não parece a mais acertada, enfraquecendo o impacto que vinha sendo construído.

Há ainda a questão do marketing em torno do lançamento como o primeiro filme brasileiro pensado para IMAX. Embora a proposta faça sentido dentro da ideia de imersão, sua efetividade acaba sendo limitada pela própria distribuição. Fora das poucas salas com esse formato, a experiência perde parte do impacto prometido, o que faz o discurso promocional soar maior do que a entrega prática para boa parte do público.

Ainda assim, é impossível ignorar o feito técnico e a ambição do projeto. 2DIE4 evidencia um domínio claro da linguagem audiovisual e da construção de experiências intensas. Ao mesmo tempo, deixa evidente que a força estética ainda não encontra o mesmo equilíbrio na construção dramática.

No fim, o filme funciona melhor como uma imersão sensorial do que como uma história. E talvez esse seja o seu maior paradoxo. Enquanto acelera ao máximo na forma, encontra seus limites quando precisa sustentar a narrativa.