Celebrado em 13 de julho, o Dia Mundial do Rock homenageia um dos gêneros musicais que transformou a cultura jovem ao redor do mundo. A data faz referência ao histórico concerto beneficente Live Aid, realizado em 1985, e, no Brasil, tornou-se uma oportunidade para relembrar artistas, movimentos e histórias que ajudaram a construir a identidade do rock em diferentes regiões do país.

Em Parnamirim, uma dessas histórias começou há mais de 60 anos. Formada em 1965, a banda Os Mugs é considerada a primeira banda de rock da cidade e ajudou a levar para o município as influências da chamada "invasão britânica" e da Jovem Guarda, em um período em que o gênero ganhava força entre a juventude brasileira.

Segundo relatos dos próprios integrantes, na década de 60, Parnamirim ainda era uma cidade pequena concentrada principalmente na Vila Militar, na Base Aérea e na região central. Numa cidade onde todos se conheciam, os integrantes contam que nunca souberam da existência de algum outro grupo musical  antes dos Mugs. 

Os Mugs nasceram da iniciativa de um grupo de adolescentes apaixonados por música. A formação original era composta por Limírio Cardoso, o Mirinho, na guitarra solo; Jairo Brandão, o Jaroca, na bateria; Nestor Lima Filho, o Nestorzinho, na guitarra base; Pedro Rodrigues Neto, no sax tenor; e Hugo Leopoldino de Oliveira, no baixo e no trompete.

Inspirados pelo sucesso de bandas como The Beatles, The Rolling Stones, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis e The Jordans, eles começaram se apresentando em eventos escolares e nos tradicionais "assustados", encontros realizados nas casas de amigos e bastante populares entre os jovens da época.

O nome Os Mugs foi sugerido por Luciano da Rocha Silveira, amigo dos integrantes e morador da Vila dos Sargentos da Aeronáutica. A inspiração veio de um símbolo cultural ligado ao universo artístico dos anos 1960: um boneco de pano conhecido como "Mug", popularizado pelo cantor Wilson Simonal.

Mug boneco
Boneco Mug

A primeira apresentação oficial da banda aconteceu no Clube Potiguar e marcou o início da trajetória do grupo nos palcos. Depois vieram apresentações no Cine Navy, na Base Aérea de Parnamirim, no Colégio Augusto Severo e em outros espaços da cidade. Um dos momentos mais marcantes foi o show realizado no Cine Navy durante o encerramento do ano letivo da escola da Base Aérea, diante de estudantes, professores, familiares, autoridades e da banda de música da Aeronáutica.

Naquele período, a cena musical de Parnamirim era formada principalmente pelos chamados "regionais", grupos que acompanhavam cantores e tocavam choros, serestas e boleros. Com a chegada da Jovem Guarda e a influência das bandas estrangeiras, o rock passou a despertar o interesse dos jovens, que começaram a formar seus próprios conjuntos e levar o novo estilo para bailes, festas e eventos escolares.

O repertório dos Os Mugs acompanhava essa transformação. Além do rock internacional, a banda também interpretava sucessos da Jovem Guarda, representada por artistas como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, além de dialogar com influências da Tropicália e da Bossa Nova. Entre as músicas executadas estavam "Os Milionários", "Czardas", "El Relicário", "Ana", "Não Te Esquecerei" e "Menina Linda", sendo "Os Milionários" uma das interpretações mais lembradas pelos integrantes.

Com o passar dos anos, os músicos ampliaram sua atuação e passaram a tocar em diversos espaços da região, como o Clube Albatroz e o Clube dos Oficiais Rampa, ambos ligados à Aeronáutica, além de clubes em Natal e festivais realizados em cidades do interior do Rio Grande do Norte.

Os Mugs 2

Um marco para o rock potiguar

Entre os momentos mais importantes da trajetória da banda está a participação no Primeiro Festival de Rock do Rio Grande do Norte, realizado em 1967, no Palácio dos Esportes, em Natal.

O evento reuniu bandas como The Jetsons, Impacto Cinco, The Fhuntos e Os Infernais, e contou com forte mobilização do público, incluindo caravanas que saíram de Parnamirim para acompanhar a apresentação dos Os Mugs.

Depois deles, outros conjuntos passaram a surgir na cidade, entre eles The Lions e Os Diferentes, contribuindo para fortalecer a cena musical local e ampliar o espaço do rock entre a juventude paranamirinense.

A banda permaneceu em atividade até aproximadamente 1970. Depois desse período, enquanto um dos integrantes seguiu carreira musical, os demais optaram por ingressar na universidade e em cursos técnicos, construindo trajetórias profissionais em outras áreas. 

Mesmo com o fim da banda e com os caminhos diferentes trilhados por cada um dos integrantes, os Mugs ainda mantém a amizade e se reúnem sempre que podem para relembrar os velhos tempos, ouvir as músicas que costumavam tocar e colocar o papo em dia. 

Os Mugs 2026.
Integrantes da banda Os Mugs - 2026

Embora tenha deixado uma marca importante na história cultural de Parnamirim, poucos registros da banda sobreviveram ao tempo. Restam apenas duas ou três fotografias, preservadas pelos próprios integrantes e seus familiares. Não há gravações em áudio ou vídeo, tampouco cartazes, recortes de jornais ou documentos relacionados ao grupo.

Na época, início do período ditatorial no Brasil o acesso a equipamentos de registros como câmeras eram de difícil acesso e a mídia era duramente censurada. No entanto, a memória dos Mugs segue viva entre seus integrantes, fãs e familiares. 

No Dia Mundial do Rock, celebrar a história dos Os Mugs é também celebrar a memória de uma geração que encontrou na música uma forma de expressão e deixou um legado que permanece vivo na identidade cultural de Parnamirim.