Para Hesha Roberto, música e imagem caminham juntas. O cantor, compositor e produtor musical natalense acaba de apresentar o videoclipe de “Entre Os Homens”, faixa do álbum “Andrômeda” que ganhou uma construção diferente: em vez de acompanhar apenas uma música, o vídeo reúne três faixas do disco em um único medley.

As músicas “Até Falhar”, “Entre Os Homens” e “Deixa...” compartilham, segundo Hesha, o mesmo “DNA” dentro do álbum. São músicas que ele define como físicas, corporais e viscerais. A escolha de reuni-las também permite construir uma narrativa a partir dos próprios títulos, percorrendo diferentes aspectos das experiências e das cobranças relacionadas ao universo masculino.

“‘Até Falhar’ introduz o raciocínio de limite, cobrança de performance e o esforço contínuo. ‘Entre Os Homens’ estabelece o pacto, a cumplicidade e, paradoxalmente, a violência intragênero. Toda essa dureza se desfaz em ‘Deixa...’, que apela, no final, para que se desfaça essa rigidez e se deixe apenas levar”, explica Hesha.

A ideia do medley, para o artista, transforma o videoclipe em uma espécie de ritual. O percurso parte da cobrança e da tensão, passa pelos códigos de silêncio e cumplicidade entre homens e chega à possibilidade de abandonar parte dessa rigidez.

Baixar a guarda

A relação com o corpo está no centro da leitura que Hesha faz de “Entre Os Homens”. Para ele, o corpo é “nosso único território real, do início ao fim”, e precisa ser vivido de acordo com o que cada pessoa pode e escolhe experimentar.

Visualmente, o clipe parte de uma estética que, à primeira vista, pode remeter ao culto à masculinidade tradicional. A proposta, no entanto, é subverter essa imagem. O homem cansado se submete ao embate até esgotar a exigência de parecer invulnerável.

“Perder e se permitir ser cuidado por outro homem, foi um ato de libertação”, afirma o artista. A ideia, segundo ele, é permitir “baixar a guarda, falhar e ser um pouco ‘menos homem’”.

“Entre Os Homens” também retoma questões presentes em trabalhos anteriores de Hesha. O artista identifica uma relação direta entre a faixa e músicas como “A Isca” e “Bitch Boy”, lançadas no início de sua trajetória, em 2011. Para ele, o clipe representa um retorno à mesma matéria-prima de códigos fechados e tensões implícitas das relações masculinas, agora atravessada por outras experiências.

Um reencontro com a música

“Entre Os Homens” integra “Andrômeda”, terceiro álbum autoral de Hesha Roberto. O disco nasceu depois de um período em que o artista se afastou dos palcos para cursar Fisioterapia em tempo integral em Santa Cruz.

Hesha conta que, mesmo distante dos palcos, continuou compondo. No interior, a música se tornou uma ferramenta de sobrevivência e escape diante do conservadorismo que encontrou naquele período, enquanto seus estudos o aproximavam de temas como corpo, reabilitação, cuidado e finitude biológica.

É desse encontro entre música e experiência pessoal que surge a ideia central do álbum. “Andrômeda” representa, para o artista, um reencontro consigo mesmo. O nome remete à galáxia, à figura mitológica e também a Shun de Andrômeda, personagem de “Cavaleiros do Zodíaco” que Hesha aponta como seu herói favorito.

Musicalmente, cada faixa foi pensada como um universo próprio. A intenção era construir um disco solar e otimista sem abandonar a melancolia existente entre o mundo como ele é e aquilo que poderia ser. Para isso, Hesha reuniu referências que fazem parte de sua trajetória, passando pelo electropop, eletrorock, house, afrohouse e eletrofunk, amarradas por uma linguagem pop direta e algumas texturas retrô.

Música que já nasce com imagem

O videoclipe ocupa um lugar importante na maneira como Hesha apresenta sua música. Ele conta que vem de uma época em que o videoclipe era entendido como um acontecimento e que, se pudesse, faria um vídeo para cada faixa que compõe.

“Porque a música pra mim já nasce com imagem, movimento e cor”, afirma.

Essa relação também está ligada à experiência do artista no Alecrim, bairro onde cresceu. Hesha relaciona sua linguagem visual à convivência com a violência urbana, o preconceito e o peso do julgamento social. Em vez de afastar essas experiências de sua produção, ele diz canalizá-las para uma estética marcada por mistério, sedução, perigo e transgressão.

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É no videoclipe que esse universo ganha forma. Para Hesha, as imagens permitem pegar aquilo que a sociedade tenta marginalizar ou reprimir e devolver em outra chave, com sofisticação, poder e magnetismo.

“Mais do que ilustrar a faixa, o vídeo dá corpo, atitude e território a minha música.”

“Entre Os Homens” é, assim, parte de um trabalho em que a música e a imagem não aparecem como linguagens separadas. O medley transforma três faixas de “Andrômeda” em uma única narrativa e retoma temas que atravessam a trajetória de Hesha, enquanto o álbum amplia essa investigação para diferentes sonoridades e experiências do artista.

Ouça “Andrômeda”

Assista ao videoclipe de “Entre Os Homens”