A Prefeitura do Natal já confirmou pelo menos R$4,6 milhões em cachês para atrações da programação do São João 2026. Esse valor considera apenas os contratos publicados até o momento (08/06) e referentes a 15 atrações já divulgadas pela gestão municipal. A programação, no entanto, é ainda maior e inclui artistas de renome nacional cujos valores permanecem sem confirmação oficial, o que indica que o custo total da festa deverá ser significativamente superior.

Entre os cachês já divulgados estão os de Calcinha Preta e Natanzinho Lima, ambos contratados por R$ 850 mil, Pablo (R$ 700 mil), Henry Freitas (R$ 600 mil), Mano Walter (R$ 400 mil), Limão com Mel (R$ 350 mil), Kátia & Aduílio (R$ 280 mil), Cavaleiros do Forró (R$ 180 mil), Marina Elali (R$ 120 mil), Jotavê e Tirullipa (R$ 100 mil cada), Abiel e Ricardo Britto (R$ 29 mil cada), Zé Hilton do Acordeon (R$ 7,5 mil) e Papel Gomes (R$ 5 mil). Somados, os contratos já publicados no Diário Oficial totalizam R$ 4.600.500. 

A realização de grandes eventos públicos é frequentemente defendida pelo poder público como instrumento de movimentação econômica, fortalecimento do turismo e geração de renda, o que, de fato, não é falso. No entanto, os valores investidos levantam questionamentos quando confrontados com problemas históricos da cidade e com pendências financeiras que seguem sem solução.

Artistas locais aguardam pagamento desde 2024

Reprodução: Saiba Mais
Reprodução: Saiba Mais

Enquanto milhões são destinados à contratação de atrações para os festejos juninos, artistas locais continuam aguardando o pagamento de cachês referentes a apresentações realizadas ainda em 2024. 

A situação motivou uma manifestação realizada no dia 6 de abril deste ano, em frente à sede da Prefeitura do Natal. Na ocasião, músicos, produtores culturais e representantes da classe artística cobraram uma solução para os débitos acumulados e denunciaram a falta de respostas concretas por parte da administração municipal.

Os valores em atraso variam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por apresentação, quantias modestas quando comparadas aos contratos milionários anunciados para o São João. Para muitos trabalhadores da cultura, entretanto, esses recursos representam parte importante da renda e do sustento de suas atividades profissionais.

A discrepância entre a rapidez com que novos contratos são firmados e a demora na quitação de débitos antigos tem gerado indignação no setor cultural. A pergunta que permanece é simples: como justificar a contratação de atrações por centenas de milhares de reais enquanto artistas locais seguem sem receber valores relativamente baixos por serviços já prestados?

Cidade convive com problemas estruturais históricos

Foto: Emanuel de Cação
Engorda de PN - Foto: Emanuel de Cação

Os gastos com os festejos também reacendem o debate sobre prioridades na gestão municipal. Natal enfrenta há anos problemas recorrentes de drenagem urbana e alagamentos. Durante o período chuvoso deste ano, os transtornos voltaram a fazer parte da rotina da população. No dia 13 de maio, a cidade registrou pelo menos 13 pontos de alagamento, comprometendo o trânsito e dificultando a mobilidade em diversas regiões.

A situação se repete anualmente, afetando moradores, comerciantes e trabalhadores que precisam enfrentar ruas intransitáveis a cada chuva mais intensa.

Outro exemplo frequentemente citado pela população é a engorda da praia de Ponta Negra. Apesar do alto investimento realizado na obra, imagens de alagamentos e acúmulo de água num dos principais cartões postais da cidade continuam sendo registradas mesmo em episódios de chuva de menor intensidade, alimentando críticas sobre a eficácia das intervenções e a necessidade de soluções estruturais mais amplas.

A conta que ainda não fechou

O valor de R$ 4,6 milhões representa apenas uma parcela do investimento previsto para o São João de Natal. Nomes como Fagner, Zezé Di Camargo & Luciano, Xand Avião, Matheus & Kauan, Bruno & Marrone, Simone Mendes, Leonardo, Nattan e outros artistas ainda não tiveram seus cachês divulgados oficialmente.

Quando esses contratos forem publicados, a cifra total da festa deverá crescer de forma expressiva.

Diante desse cenário, o debate ultrapassa a realização de um evento cultural. A cultura de uma cidade é sim importante, eventos culturais, sejam eles pequenos ou grandes, movimentam a economia, geram emprego e renda, fortalecem o turismo e contribuem para a valorização da identidade local. No entanto, a discussão não está na existência da festa em si, mas nas prioridades da gestão pública e na forma como os recursos são administrados. 

A questão central passa a ser a gestão dos recursos públicos e a definição de prioridades. Enquanto a prefeitura amplia os investimentos em grandes atrações, artistas locais aguardam pagamentos atrasados, bairros seguem convivendo com alagamentos e problemas urbanos históricos permanecem sem solução definitiva.

Mais do que discutir o custo de uma festa, a população tem o direito de questionar se os investimentos realizados estão acompanhados do mesmo compromisso com as demandas cotidianas da cidade e com aqueles que, há anos, ajudam a construir a cultura local.