Durante anos, a Rua Firmino Gomes de Castro, no Vale do Sol, fez parte do meu cotidiano em Parnamirim sem que eu soubesse exatamente quem havia sido o homem que dava nome àquela via. Como acontece com tantas ruas da cidade, o nome estava ali apenas como parte da paisagem urbana, repetido em placas, entregas e trajetos automáticos. Até que, recentemente, descobri uma ligação inesperada entre Firmino e o café.

Parte dessas descobertas veio através do livro Um Homem Dinâmico: Firmino de Castro, escrito por Íris de Castro Lima, filha do empresário. A publicação reúne memórias familiares e relatos sobre a trajetória de Firmino Gomes de Castro, personagem conhecido por muitos antigos moradores da cidade tanto pela atuação política quanto pelo trabalho à frente do Café Rio Grande.

Cpa Livro Um Homem Dinâmico

Foto: Capa Livro Um Homem Dinâmico: Firmino de Castro

O tempo do Café Rio Grande

Inicialmente fundada no bairro do Alecrim, em Natal, em 1946, a empresa funcionava como torrefação e trabalhava com cafés vindos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais. Entre as décadas de 1960 e 1970, o Café Rio Grande transferiu suas atividades para Parnamirim, ocupando uma área às margens da BR-101, no Centro da cidade, entre as atuais ruas Edgar Dantas e Aspirante Santos.

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Foto: “Av. Comandante Petit - Centro de Parnamirim - Anos 70” - Imagem cedida.

Trechos do livro descrevem justamente essa mudança para Parnamirim como um momento decisivo para a família e para o crescimento da torrefação. Segundo a publicação, Firmino escolheu a cidade pela tranquilidade e pelas possibilidades de expansão. Aos poucos, a estrutura foi crescendo com galpões, maquinários, fornos e área de embalagens, consolidando uma indústria que marcou época na cidade.

Mais do que uma torrefação, o espaço também beneficiava e comercializava colorau e derivados do milho, tornando-se uma indústria importante para a economia local e responsável pela geração de muitos empregos.

“Meu avô foi um homem muito ligado ao trabalho e à cidade. O Café Rio Grande marcou uma época em Parnamirim e muita gente teve sua primeira oportunidade profissional lá”, relembra Firmino Neto, neto do empresário e atualmente também atuante na política local.

1ª Convenção Nacional da indústria de Torrefação e Moagem de Café_Livro Um Homem Dinâmico Firmino de Castro Lima

Foto: “1ª Convenção Nacional da indústria de Torrefação e Moagem de Café” Livro Um Homem Dinâmico Firmino de Castro

Conhecido por muitos como “irmão Firmino”, ele também carregava uma identidade profundamente ligada à tradição evangélica da cidade. Presbítero da Assembleia de Deus, costumava priorizar irmãos e irmãs da igreja nas contratações da empresa, algo que acabou fortalecendo ainda mais sua presença na memória popular de uma Parnamirim historicamente marcada pela forte cultura evangélica.

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Foto: “Inauguração da Torrefação” - Livro Um Homem Dinâmico Firmino de Castro

As memórias que ficaram

A partir daí, comecei a encontrar relatos de antigos moradores que lembravam do chamado Café Rio Grande nas décadas passadas. Algumas pessoas recordam ter trabalhado no local. Outras lembram de consumir o café em casa, no comércio ou em pequenos mercados da cidade. Em meio às memórias, uma história aparece repetidas vezes, quase sempre em tom de brincadeira: a de que Firmino “misturava milho no café pra render”.

comentários café rio grande

Imagens: Facebook - Grupo Parnamirim das Antigas

Hoje, práticas desse tipo são associadas a cafés de baixa qualidade e são amplamente fiscalizadas pela indústria. Mas, naquele período, a lembrança parece sobreviver menos como denúncia e mais como memória popular, dessas histórias que atravessam gerações entre exageros, afetos e comentários de esquina. Alguns antigos consumidores dizem que o sabor não era exatamente dos melhores. Outros, porém, lembram do Café Rio Grande com carinho e garantem que o café tinha personalidade própria e conquistou muitos consumidores na cidade. Ainda assim, independentemente das opiniões, o café permaneceu na memória coletiva de Parnamirim.

A herança do Café Jaçanã

E talvez exista certa ironia afetiva nisso tudo. Décadas depois das histórias sobre o café “misturado”, a família voltou a apostar em uma proposta completamente diferente através do Café Jaçanã, agora focado justamente na valorização da qualidade do grão, da produção artesanal e dos cafés especiais. A marca é uma continuidade direta da tradição iniciada ainda nos tempos do Café Rio Grande, mas adaptada a um novo momento da cafeicultura brasileira.

Café Jaçanã Pacotes

Foto: Reprodução Café Jaçanã

Foi justamente durante a mudança da empresa para Parnamirim que Firmino descobriu o potencial climático de Jaçanã para a produção cafeeira. A cidade serrana, marcada pelas temperaturas mais baixas e pela altitude de cerca de 700 metros, passou então a integrar a história da família com o cultivo de café no interior potiguar. Segundo informações repassadas por Firmino Neto, o plantio iniciado pelo avô acabou servindo de base para a produção atual desenvolvida pela família em Jaçanã.

Foto Colhendo Café_Livro Um Homem Dinâmico Firmino de Castro - Autora íris de Castro Lima

Foto: “Colhendo Café” - Livro Um Homem Dinâmico Firmino de Castro

Durante um período, a produção ficou praticamente interrompida. Mas, segundo relatos da própria família em reportagens recentes sobre a retomada da cafeicultura potiguar, a pandemia acabou despertando um novo olhar sobre os antigos cafezais da propriedade. A partir de 2020, os remanescentes dos pés plantados décadas atrás passaram a ser recuperados, renovados e adaptados ao mercado contemporâneo de cafés especiais.

Hoje, a produção segue sob gestão de Jeremias Castro, Diogo e Diane Castro, reunindo fazenda e torrefação na cidade serrana e apostando em cafés especiais, gourmet e superiores. O Café Jaçanã trabalha principalmente com variedades de café arábica e vem ampliando o cultivo com novas espécies experimentais, além de investir em torra artesanal, rastreabilidade e seleção mais cuidadosa dos grãos.

Foto Reprodução Café Jaçanã Grãos

Foto: Reprodução Café Jaçanã

A proposta atual parece dialogar diretamente com a ideia de origem e identidade regional, o próprio nome “Café Jaçanã” surgiu justamente para reforçar essa ligação entre produto, território e memória familiar.

Além da produção, a propriedade também vem apostando em experiências ligadas ao turismo rural e ao universo dos cafés especiais, aproximando visitantes do processo de cultivo, torra e preparo da bebida. O projeto acabou se tornando um dos exemplos mais citados quando se fala na renovação da cultura cafeeira potiguar.

Dia Nacional do Café

Os números mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a produção brasileira de café deve alcançar 66,7 milhões de sacas em 2026, um crescimento de 18% em relação à safra anterior. Caso a projeção seja confirmada, o país alcançará o maior volume já registrado na série histórica da companhia. A expectativa é impulsionada pelo aumento das áreas de cultivo, condições climáticas favoráveis e recuperação da produtividade das lavouras.

Enquanto o Brasil segue como potência mundial do café, o Rio Grande do Norte tenta reconstruir sua própria relação com o grão através da valorização dos cafés especiais produzidos em regiões serranas do estado. Nos últimos anos, iniciativas do Sebrae/RN passaram a investir na retomada da cafeicultura potiguar, com ações voltadas para capacitação de produtores, fortalecimento do turismo rural e incentivo à produção de cafés de maior valor agregado.

Café Brasil

Segundo dados apresentados pelo próprio Sebrae/RN, cafés produzidos no estado já alcançam cerca de 84 pontos em avaliações técnicas de cafés especiais, classificação considerada elevada dentro do mercado nacional. Atualmente, municípios como Martins, Jaçanã, Portalegre, Lagoa Nova e Cerro Corá fazem parte desse movimento de retomada da cultura cafeeira potiguar.

Em cidades como Parnamirim, esse movimento aparece menos nas lavouras e mais nos encontros cotidianos ao redor da bebida. O café segue presente nas padarias, nas cozinhas de família e, cada vez mais, em cafeterias que transformam a experiência de tomar café em espaço de convivência, memória e afeto.

O café como encontro

Hoje, cafeterias espalhadas por Parnamirim ajudam a construir uma nova relação da cidade com o café. Entre elas está a Caramelo Café e Doces, criada pelos sócios Joás Gabriel e Cíntia Mafra. O espaço nasceu inicialmente como Caramelo Confeitaria Artesanal, em 2021, depois que os dois começaram a vender brownies feitos para encontros entre amigos.

Caramelo Cafeteria

Foto: Reprodução Caramelo Café e Doces

Com o tempo, perceberam que existia um público interessado em cafés de maior qualidade na cidade, mas ainda pouco contemplado pelos estabelecimentos locais. “Parnamirim carecia de cafeterias. Muitas vezes precisávamos ir até Natal para tomar um bom café”, conta Joás.

Para ele, o café deixou de ser apenas bebida e passou também a funcionar como experiência de convivência. “Muitas pessoas veem sair para tomar café como uma forma de confraternizar, conversar e aproximar pessoas. O café acaba sendo protagonista desses encontros”, afirma.

Joás também acredita que o crescimento do interesse por métodos especiais e diferentes formas de preparo mostra uma mudança no perfil do consumidor local. “O público parnamirinense tem buscado mais cafés especiais e métodos distintos de preparo, muito por causa da disseminação dessas experiências pela internet”, explica.

Mas, para além da técnica, ele acredita que o principal vínculo entre café e memória continua sendo afetivo. “O cheiro do café passado tem algo muito forte, que leva muita gente de volta à infância, lembrando dos pais ou avós passando café cedo, da cozinha acordando junto com a casa, das conversas simples e do cuidado nos pequenos momentos”, diz.

Entre memórias afetivas, histórias de bairro e o cheiro que insiste em atravessar gerações, o café continua ocupando um lugar curioso na vida urbana: ao mesmo tempo simples e simbólico. Aqui, ele parece sobreviver não apenas nas xícaras, mas também nas ruas, nas histórias antigas e nas pequenas lembranças que ainda circulam pela cidade. Esse café “passado” permanece extremamente fresco e ainda quente na memória de Parnamirim.