Entre gemidos, ruídos e psicodelia: Vagalumes do Mar lança “Cornucópia”.
Novo single da banda chegou às plataformas e antecipa a participação do grupo na coletânea Elefante Core.

Existe algo de inquieto em “Cornucópia”, novo single da Vagalumes do Mar lançado nesta sexta-feira (15). A música parece caminhar entre desejo e desconforto, entre impulso e delicadeza, enquanto vozes fantasmagóricas atravessam a faixa como presenças tomando conta do ambiente. Em menos de três minutos, a banda constrói uma experiência crua, quente e estranhamente hipnótica.
A faixa já está disponível nas plataformas digitais e antecipa a participação do grupo na coletânea Elefante Core, projeto que reúne nomes da cena underground do Rio Grande do Norte e será lançado em junho.
“Cornucópia” nasceu de uma composição antiga, retomada quase por acaso durante os ensaios da banda. Segundo o grupo, a necessidade de enviar uma música para a coletânea acabou reacendendo o interesse pela canção.
“A gente tem umas músicas no bolso de certa forma, mas nenhuma delas parecia apropriada pra esse lançamento. A gente foi passando ela junto do repertório de show e no segundo ensaio chamei Mateus pra fazer o baixo. Rapidão ela ficou pronta.”
— Edo Sadistica, Vagalumes do Mar
A letra opera em torno de uma recusa da lógica como única forma de existência. “Me deixa ser passional em paz / porque a lógica não satisfaz”, canta a banda em um dos versos centrais da música. Em outro momento, a composição rejeita diretamente a ideia de equilíbrio: “eu não quero equilíbrio / eu quero o chão”.
Uma música quente, crua e psicodélica
Essa dimensão emocional também atravessa a própria forma como o single foi gravado. Registrada em fita de 16 canais no estúdio Sonorus, em São José de Mipibu, a faixa foi captada praticamente ao vivo, em uma única diária. A escolha reforça o caráter orgânico da música e aproxima a gravação de referências clássicas do rock psicodélico e experimental.
“A faixa fica quente. Muito dos artifícios de mixagem na música digital servem justamente pra emular essa sonoridade característica desse tipo de gravação. É realmente muito mais cru e orgânico.”
— Edo Sadistica, Vagalumes do Mar

Capa: Mateus Araújo
Segundo a banda, o próprio desgaste da fita acaba interferindo no resultado final, carregando marcas de gravações anteriores e criando pequenas imperfeições que ajudam a construir a atmosfera da música.
Mas talvez o elemento mais intrigante de “Cornucópia” esteja nas camadas de vozes, risadas e efeitos espalhados pela faixa. Em alguns momentos, os sons lembram trilhas de filmes clássicos de terror; em outros, evocam uma espécie de transe ritualístico. A construção dessas texturas veio de uma inquietação específica dentro do arranjo.
“Eu tava incomodada que nosso arranjo carecia de um elemento de delícia, sabe? Como se a personagem tivesse lutando por esse lugar de excesso e prazer, mas a gente não via essa delícia. Essa camada de gemidos, risadas e delícia vieram pra reforçar esse aspecto.”
— Edo Sadistica, Vagalumes do Mar
Para a banda, o resultado acabou levando “Cornucópia” para um território ainda mais psicodélico do que trabalhos anteriores.
Coletividade como condição de existência
A gravação também marca um novo momento interno da Vagalumes do Mar. Hugo Valentim, responsável pela produção musical do single, passou recentemente a integrar de forma mais próxima o cotidiano da banda, assumindo uma função técnica ligada à construção sonora dos shows e gravações.
A expansão da formação habitual aparece ainda na participação de Mateus de Araújo no baixo, além das diferentes colaborações ligadas à Casa do Rock, espaço que se tornou referência dentro da cena alternativa potiguar. Para a banda, essa dimensão coletiva não é apenas uma escolha estética ou política, mas parte fundamental da própria existência do grupo.
“Essa coletividade não é nem uma escolha pra gente. É meio que condição de existência mesmo. A gente só sabe ser assim.”
— Edo Sadistica, Vagalumes do Mar

Esse espírito também atravessa a participação da banda na coletânea “Elefante Core”. O grupo relembra a importância que os volumes anteriores tiveram na formação de sua própria trajetória dentro da cena underground do estado.
“Conhecemos muitas bandas através da coletânea. Esse ano, quando Bebeto convidou a gente, ficamos muito felizes de participar junto com tantos amigos.”
— Edo Sadistica, Vagalumes do Mar
Presença, emoção e excesso
Embora “Cornucópia” funcione como uma espécie de ponto de virada para a banda, o lançamento também aponta para o futuro. A Vagalumes do Mar confirma que já trabalha em um novo álbum, ainda sem previsão de lançamento.
“Ele não vem por uma necessidade de fora. Vem porque estamos com vontade e caminhando nessa direção. Então sem pressa e sem pausa é exatamente isso.”
— Edo Sadistica, Vagalumes do Mar
No fim, “Cornucópia” parece defender justamente aquilo que a música contemporânea muitas vezes tenta controlar: presença, excesso, emoção e imperfeição. Em tempos de racionalização constante e algoritmos moldando sensibilidades, a banda aposta no calor humano como experiência irreproduzível.
“O nosso pensar nunca será inteiramente lógico porque é permeado de emoção. Sentir e pensar estão ligados inseparavelmente. Às vezes esses papos de lógica e equilíbrio vêm numa tentativa de esfriar a gente. Alguns excessos são importantes. Às vezes, mesmo o demais é pouco.”
— Edo Sadistica, Vagalumes do Mar
“Cornucópia” já está disponível nas plataformas digitais e abre caminho para os próximos lançamentos da banda, incluindo um novo álbum atualmente em desenvolvimento.
Ficha técnica - “Cornucópia”
Letra: Edo Sadistica
Música: Vagalumes do Mar
Captação: Nilson Eloy
Produção musical: Hugo Valentim
Vocal: Tony
Back’in vocals: Edo Sadistica, Josué Neto, Mateus de Araújo
Vozes de efeito: Davi Selton, Edo Sadistica, Hugo Valentim, Josué Neto, Mateus de Araújo, Tony
Bateria: Davi Selton
Guitarra: Tony
Baixo: Mateus de Araújo
Teclados: Edo Sadistica
Gravado em fita com Tascam MSR16 no Sonorus Estúdio
Mixado e masterizado nos estúdios Quarto Sem Cama e Bruhma
Distribuição: DoSol
Instagram: @vagalumesdomar




